Ano 3: 1 alemão + 1 inglês medíocre – 1 brasileiro = F1 Trágica

Posted on 02. Jun, 2009 by Marcio in Formula 1

 

 

Decisão revoltante num campeonato triste e cheio de polêmica: Schumacher fecha Hill em Adelaide.

Decisão revoltante num campeonato triste e cheio de polêmica: Schumacher fecha Hill em Adelaide.

A emoção parecia tomar conta da disputa pelo título em 1994, o terceiro ano na carreira de Schumacher. Senna tinha ido a Williams, a equipe que o deu a primeira oportunidade de guiar um F1 em 1983 (testes), com um objetivo bem claro: o tetra! E, antes do início da temporada, o tetra era dado como certo. Afinal, Mansell tinha dado um lavada em todos com este carro em 92, para o seu primeiro e único título na F1 (e até então, o mais enfadonho). Patrese tinha sido vice naquele ano, mostrando a superioridade do carro (164×99 no duelo entre Williams e McLaren). Em 93, a Williams tinah feito ainda mais pontos – 168, contra 84 da McLaren. Mas o vice não tinha sido Damon Hill, e sim Ayrton Senna, mostrando o seu talento único mais uma vez. Quem duvidava que Senna, que entrava no lugar do seu eterno rival Prost, seria campeão fácil nesta equipe dominante? Afinal, sem ele a McLaren deveria piorar ainda mais, e só o alemão Schumacher, da Benetton, poderia servir de ameaça. E que lugar melhor para começar uma temporada histórica, em que Prost provavelmente teria que assistir como Senna igualava os seus quatro títulos, do que no país do futebol, samba e Formula 1? O GP do Brasil abriu a temporada muito esperada pela torcida brasileira, e nem tanto pelo resto do mundo – pelo fato de provavelmente ser mais uma temporada sem graça, no que dizia respeito a disputa pelo título.

 

Largada da temporada: Senna mantém a ponta, Schumacher (ao lado de Hill) perde a posição para Jean Alesi, Ferrari.

Largada da temporada: Senna mantém a ponta, Schumacher (ao lado de Hill) perde a posição para Jean Alesi, Ferrari.

Mas que início: primeiramente, a Williams não parecia tão boa quanto nos anos anteriores: Damon Hill se classificou atrás de uma Ferrari, com o tempo mais que 1,5 segundos atrás da pole fantástica de Ayrton Senna. Mas Alesi, em terceiro, tinha ficado quase 1,2 segundos atrás de Schumacher; o que parecia mostrar: a disputa ficaria entre Senna e Schumacher em toda a temporada, muito mais rápidos do que qualquer outro piloto. E, a novidade: poderia realmente ser uma disputa!

 

Schumacher pressiona Senna no seu GP de casa; o alemão levou a melhor neste duelo!

Schumacher pressiona Senna no seu GP de casa; o alemão levou a melhor neste duelo!

Na corrida, foi isso que se viu. Senna conseguiu abrir 4 segundos, porque Alesi (Ferrari) tinha passado o Schumacher na largada; mas logo na segunda volta, o alemão passou o francês e começou a perseguição ao Senna. Na sétima volta, Schumacher fez a melhor volta da corrida – mostrando como este estava pressionando Senna desde o início, e chegando a apenas 1 segundo de desvantagem até a primeira parada de box. Ambos entraram juntos no box, mas Schumacher e a equipe escolheram ficar menos tempo pra sair na frente – o que deu certo! Schumacher agora estava na frente – e se mandando, abrindo 10 segundos para o perplexo brasileiro, na frente de um público descrente. Senna então começou a forçar, já na segunda metade da corrida, na tentativa de tirar tudo do carro e chegar perto do alemão. E, realmente, estava começando a chegar, ficando a 5,5 segundos dele – na F1 ainda uma eternidade, mas mostrando que a corrida poderia voltar a ser interessante. Nesta hora, um erro: Senna roda sozinho na laranjinha e abandona a corrida. Frustração e pouca emoção, Schumacher vence de forma merecida.

Em Fuji, Japão, para a segunda corrida, a Williams se mostrou melhorada. Hill ficou há apenas meio segundo atrás da pole, em terceiro – atrás de Schumacher, que era 2 segundos inteiros mais rápido que Jos Verstappen, o seu companheiro de equipe. Igualzinho ao GP do Brasil, por sinal, quando tinham sido 2 segundos também. Schumacher ficou 0,3 seg atrás de Senna no grid, mas desta vez não teve disputa na corrida. Porque logo na primeira rodada, Mika Hakkinen, o jovem finlandês que tinha conseguido se classificar em quarto, tocou Senna (que não havia largado bem), que rodou e saiu da pista, abandonando a disputa. Schumacher venceu a corrida com 75 segundos de vantagem para Berger, já que Damon Hill teve problemas no carro. Barrichello, que já tinha ficado em quarto no Brasil, subiu ao pódio pela primeira vez e impressionava a todos.

Sobre a terceira corrida, em San Marino, muito foi escrito. Foi lá que a temporada de F1 foi decidida, com a morte trágica de Senna, que tinha Schumacher mais uma vez o pressionando, como no Brasil. Até o GP da França, Schumacher tinha colecionado seis vitórias em sete corridas, sendo derrotado por Damon Hill apenas uma vez, no GP da Espanha. Vale ressaltar que este GP é famoso por ser o mais dependente de carro e menos de piloto, por isso é a pista oficial de treinos na F1 até hoje. Isso mostra a superioridade da Williams também neste ano, já que Schumacher perdeu para Hill pela primeira de apenas três vezes em toda a temporada. Schumacher 66, Hill 29 – faltando nove corridas. Nesta hora, a FIA começou a tentar tornar a temporada mais emocionante. Afinal, estava se formando a terceira temporada sem graça consecutiva, desta vez porém com nenhum carro superior, e sim um piloto superior.

 

Segundos antes do final de uma temporada que prometia muito - e muito pior, do final da vida de um gênio da F1.

Segundos antes do final de uma temporada que prometia muito - e muito pior, do final da vida de um gênio da F1.

Foi no GP da Inglaterra que a charada começou. Damon Hill fez a pole, apenas 3 milésimos a frente de Schumacher. Na volta de warm-up, numa das freadas brucas do Hill, Schumacher o passou, mas logo devolveu a posição; afinal, no grid, estava tudo em sua ordem normal: Hill largou na ponta, e Schumacher o seguiu. De repente, é anunciada uma punição: Schumacher teria que fazer um stop-and-go no box por ter passado um piloto (Hill) no warm-up. Que piada! Não só os fãs telespectadores acharam isso, mas a equipe Benetton, também. Eles se comunicaram com a liderança da corrida, dizendo que não achavam justa a punição, e pediram para Schumacher ficar na pista, enquanto resolviam a questão nos bastidores. Mas a resposta foi clara: bandeira preta para o alemão, por não obedecer ordens da liderança de corrida. Mais uma vez, a equipe, revoltada, pediu ao Michael que não obedecesse, e Schumacher terminou a corrida em segundo. Mas logo foi desqualificado da corrida, perdendo estes seis pontos. A Benetton foi à corte, e poucas semanas depois, o escândalo ficou maior ainda: Schumacher foi punido com duas corridas por causa do ocorrido.

 

Schumacher venceu o seu primeiro Mônaco em 94, mas logo a sua vantagem enorme na temporada seria cortada pela FIA...

Schumacher venceu o seu primeiro Mônaco em 94, mas logo a sua vantagem enorme na temporada seria cortada pela FIA...

Em geral, quando acontece algo assim, mesmo hoje em dia, é a equipe que leva qualquer punição. E há coisas muito piores acontecendo, onde, dependendo de como anda o campeonato, a equipe é livrada completamente – como a McLaren este ano, com esse lance da mentira do Lewis Hamilton, que passou numa fase de bandeira amarela e depois mentiu sobre isso. Schumacher passou involuntariamente no warm-up, antes da corrida, e recebeu um total de duas corridas de punição, fora os pontos do GP da Inglaterra – incrível!

Antes da punição, Schumacher abandonou na Alemanha, mas venceu na Hungria (também uma pista para carros, grande feito dele aí) e na Bélgica. Ele venceu com 90 segundos de vantagem nesta corrida que é considerada uma corrida de pilotos – mesmo com uma rodada que deu mais pro fim da corrida. Mas uma parte debaixo do carro estava mais desgastada do que o permitido pelo regulamento – por 5 mm. A FIA conclui que ele tinha uma vantagem aerodinâmica, e a Benetton replicou que ele usara tanto as zebras, principalmente antes da reta final, que o desgaste era maior o previsto. Não adiantou; Schumacher perdeu os pontos, e a vitória foi dada a Damon Hill.

 

Hill vence Schumacher com mérito, no GP do Japão - uma das raras vezes.

Hill vence Schumacher com mérito, no GP do Japão - uma das raras vezes.

Hill venceu as duas corridas nas quais Schumacher foi suspenso pelo incidente na Inglaterra, e agora, faltando apenas três corridas, Schumacher liderava o campeonato por apenas um ponto – uma piada de mal gosto! E o pior é que a Williams tinha voltado a ser o melhor carro, de vez. Fácil de comprovar pelas diferenças entre os tempos dos dois concorrentes ao título, cada vez mais próximo em treinos e em corrida. Em Jerez, Schumacher conseguiu produzir uma pole apenas 0,1 segundos a frente de Hill, mas na corrida fez a diferença, com quase meio minuto de vantagem no final. Ele simplesmente era mais rápido e constante, e abria 5 pontos de vantagem na luta pelo título, faltando duas corridas. Muito ainda podia acontecer – e aconteceu: no GP do Japão, Damon Hill teve o que foi pra mim o melhor final de semana em sua carreira. Schumacher fez a pole nesta pista que tende mais a habilidade do que a maquina, meio segundo a frente de Hill. Mas este Hill venceu Schumacher na pista, em uma das poucas vezes em que isso aconteceu – e ainda debaixo de chuva! Com isso, antes da última corrida, Schumacher tinha 92 pontos – contra 91 do seu rival, Hill. E este tinha o momentum – carro agora bem melhor, e finalmente mostrando sinais de habilidade como piloto!

E para apimentar tudo, o novato David Coulthard teve que pausar, e em seu lugar, Nigel Mansell dirigiria o segundo carro da Williams. Com 16 milésimos de vantagem, conseguiu a pole a frente de Schumacher, que foi mais que 0,6 segundos mais rápido que Hill. Mais uma demonstração de quão boa era a Williams, o Schumacher e quão medíocre era o Hill. Na corrida, Schumacher logo assumiu a liderança, e Mansell deixou Hill passar. Schumacher chegou a abrir 3 segundos de vantagem, mas logo Hill vinha baixando os tempos. Num destes momentos, já na metade da prova, Schumacher cometeu um pequeno erro, abriu demais numa curva e tocou o muro, logo voltando a pista. Nisto, Hill encostou nele e tentou ultrapassar pela esquerda, Schumacher bloqueia. Depois pela direita, Schumacher fechou a porte e bateu, abandonando. Hill abandonou apenas no Box, e Schumacher foi declarado campeão do mundo. Veja neste link: http://www.youtube.com/watch?v=MuMARBYvPhQ

 

Imagem espetacular do fim de temporada: Schumacher o mais jovem campeão de todos os tempos, até então. Mas com atitude antidesportivo, mesmo que com o título merecido.

Imagem espetacular do fim de temporada: Schumacher o mais jovem campeão de todos os tempos, até então. Mas com atitude antidesportiva, mesmo que com o título merecido.

Sem dúvida alguma foi um fim horrível para uma temporada trágica e cheia de política. Numa incrível diferença em relação a temporada de 1986, esta temporada foi para a história como uma das piores de todos os tempos. Pela morte de Senna, a subseqüente superioridade absoluta de Schumacher, a FIA tornando a coisa mais emocionante com punições absurdas e no mínimo exageradas, e finalmente o alemão sendo completamente antidesportivo para levar o título com essa manobra pra cima do pouco talentoso, mas bastante gente boa Damon Hill. Ninguém duvida que Schumacher mereceu o título, e pelas sacanagens de antes, pouca bola foi dada para a manobra desleal de Schumacher naquela corrida, que Mansell ganhou por sinal (mesmo mandando mal pra caramba, o que comprovava uma vez por todas como aquela Williams era boa no final do ano).

Uma frase precisa ser escrita sobre como a temporada poderia ter sido se Senna não tivesse morrido. Claro, é apenas especulação pura que não leva a nada, mas pelo desenvolver da temporada, duas coisas não teriam acontecido, com certeza: as punições a Schumacher, e possivelmente o título dele. Há uma boa chance de, na segunda metade da temporada, Schumacher não poder compensar a desvantagem do seu carro com o seu talento, e Senna tinha realmente boas chances de levar o tetra naquele ano.

Para fechar, vou passar a comparação de Senna e Schumacher nos seus terceiros anos, respectivamente. É verdade, como destaquei agora a pouco, que o ano de 86 foi muito mais espetacular e esportivo do que 94. Mas olhando apenas para a performance dos pilotos Senna & Schumacher, chego às seguintes conclusões:

Schumacher e Senna estavam em equipes que lutavam ocasionalmente por vitórias, e mais freqüentemente por pódios, nos anos anteriores. É válido a comparação da Lotus de 85 com a Benetton de 93, em termos de como se comparava com os dois melhores carros de ambas as épocas: Williams, depois McLaren. No ano seguinte, a Lotus não evoluiu o suficiente para Senna lutar por vitórias, a Benetton sim. Leve vantagem Schumacher, porque dizer que o piloto não tem nada a ver com o desenvolvimento do carro é negar uma verdade. Outra: Senna teve oponentes, e algumas vezes os venceu com carro inferior. Schumacher só teve um oponente real na temporada, o Senna das primeiras três corridas; e mesmo com poucos dados, ele pode ser declarado o vencedor pelo menos no GP do Brasil, neste duelo. No mais, era um duelo contra o carro da Williams e a FIA. Na performance de pilotagem, fica difícil de avaliar pela morte do Senna, mas parecem equivalentes: um ficou em quarto no terceiro melhor carro, sendo sempre bem mais rápido que o seu companheiro. O outro foi campeão com 92 pontos (e teria sido com cerca de 122), enquanto os seus companheiros JJ Lehto e Jos Verstappen conseguiram um total de 11 pontos. Acho que o Damon Hill é um Nigel Mansell levemente piorado, por sinal. E Hill foi bem menos adversário para Schumacher do que Mansell pro Senna, mas também a Lotus de 86 não era tão boa quanto a Benetton de 94.

Mesmo com o gosto ruim com o primeiro título obtido da forma que foi, Schumacher se tornava o campeão de F1 mais jovem da história, e para isso não precisou trocar de equipe.

 

Senna ao lado de Schumacher em coletiva antes do trágico GP de San Marino.

Senna ao lado de Schumacher em coletiva antes do trágico GP de San Marino.

Portanto, apesar da temporada de 86 ter sido infinitamente superior aquela de 94, Schumacher leva leve vantagem sobre Senna no ano 3. Campeão sem ter o melhor carro, foi o que o Prost fez em 86 também – e lembrem que o classifiquei como segundo melhor daquele ano, atrás de Senna. Mas a superioridade de Schumacher em relação a Williams é a grande diferença; tanto que ninguém tinha dúvidas de que não somente Schumacher merecia o título, mas que Hill não merecia – bem diferente de Mansell em 86!

Para mim, o placar está agora 3×2 para o alemão.

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2 Responses to “Ano 3: 1 alemão + 1 inglês medíocre – 1 brasileiro = F1 Trágica”

  1. joseph

    18. Oct, 2009

    Se você soubesse mais da historia da formula 1 e “principalmente” de aerodinamica e rendimento de motores não faria uma comparação desse tipo.

  2. joseph

    18. Oct, 2009

    no ano de 94 a williams ja não era mais imbativel.Leia no link porquê:
    http://blog.estadao.com.br/blog/livio/?title=o_porque_de_o_carro_da_williams_de_senna&more=1&c=1&tb=1&pb=1

    Podia até ter um bom motor mas era instavel.E na formula 1 estabilidade é tudo(ou estou errado?).
    Como Damom Hill era da mesma equipe provavelmente os problemas tambem eram iguais.

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